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Brasília colonial — Uma fazenda babilônica


Nenhuma propriedade traduz melhor os
tempos do ouro e da cana-de-açúcar no Distrito Federal e no Entorno do
que a Fazenda Babilônia. Na área rural de Pirenópolis (GO), ela faz jus
ao nome devido à sua grandiosidade.
Descendentes dos antigos donos ainda
preservam o que de melhor a fazenda sempre teve. A fachada e todos os
cômodos estão como há mais de 200 anos. Ao redor, em seus fogões a lenha
e suas imensas mesas de madeira maciça, eles cultivam, cozinham e comem
os mesmos pratos feitos e consumidos pela família do senhor de engenho e
seus escravos.
A fazenda teve origem como um engenho de
cana-de-açúcar batizado de São Joaquim, no fim do século 18, quando os
proprietários não moravam nela. Entre 1800 e 1805, escravos construíram o
imponente casarão em estilo colonial, com o dinheiro do comendador
Joaquim Alves de Oliveira. Em pouco tempo, ele transformou a propriedade
na maior empresa agrícola de Goiás do século 19.
Na época, toda a fazenda ocupava uma área
do tamanho de 50 mil campos de futebol. O comendador era dono do
povoado Minas de Meia Ponte, a atual Pirenópolis. Com a agricultura e o
comércio, transformou o lugarejo em uma das principais cidades goianas,
tornando-o o centro comercial do estado.
Com quase 300 mulas, a tropa de Joaquim
de Oliveira levava produtos da Babilônia e de outras propriedades de
Goiás ao restante do Centro-Oeste. A caravana trazia nessas viagens
produtos essenciais, como sal e ferro, e outros tantos lucrativos ao
comendador, como tecidos finos e armas.
Com a patente de tenente-coronel comandante, ele editou o primeiro jornal do Centro-Oeste, a Matutina Meiapontense — que circulou de 1830 a 1835 —, montou a primeira biblioteca do estado e levou um professor para educar a população local.
 
 
Exageros
Dos tempos áureos, a Babilônia mantém
impecavelmente conservado o casarão sede. Grossos esteios e vigas de
madeiras, com paredes de adobe e pau a pique, sustentam o prédio de 2
mil metros quadrados. Algumas vigas medem dois palmos de largura e
atravessam vãos de até 15m.
Coberto com telhas-coxa, o telhado é
feito de caibros roliços, com cerca de 20cm de diâmetro, próximos uns
dos outros. Encaixes precisos e cavilhas de madeiras unem o madeirame.
Até as dobradiças das portas são feitas de madeira. Havia carência de
metal no início do século 19, devido à dificuldade da importação por
causa do custo da longa viagem.
Os pregos usados na construção,
principalmente nos assoalhos, são quadrados, feitos manualmente em
bigornas. Muros de pedras ainda cercam o casarão. Erguidos pelos
escravos, eles também circundam o curral, outras construções da
propriedade e cruzam boa parte do pasto.
 
Na
sede da fazenda, destaca-se ainda a capela — toda original —, na
varanda, que acompanha toda a frente da casa. O altar, estreito e ao
fundo, é encimado por um pequeno nicho onde se encontra a imagem de
Nossa Senhora da Conceição sobre um retábulo de madeira. Chamam atenção
ainda os diversos espelhinhos redondos, correntes pintadas e meias-luas,
provavelmente herança dos artistas escravos africanos.
Na parede contígua à casa, há uma janela
treliçada com vista para a sala. “Da sala vê-se o altar. Era também uma
maneira de contemplar as mulheres, que assistiam às missas acomodadas na
sala. Os homens assistiam em pé, na varanda. Apenas o padre ficava
dentro no interior da capela”, conta Telma Lopes Machado, 62 anos,
integrante da quarta geração de proprietários da Babilônia.
O comendador morreu em 1851. Com a
decadência da cana-de-açúcar e do algodão, em função dos altos custos
com o transporte das mercadorias, os herdeiros decidiram se desfazer da
propriedade. Revendida, ela chegou à família de Telma, que faz de tudo
para manter a propriedade produtiva e de forma original.
Senzala
Dos tempos do comendador, desapareceu a
senzala, que abrigava os escravos. Ninguém sabe a data da sua extinção. A
única certeza é a de que o prédio existiu. Há vestígios perto do muro
de pedras e um desenho colorido de Tonico do Padre (Antônio da Costa
Nascimento, um artista local), de 1864.
  
Arqueólogos
goianos fizeram escavações há oito anos e encontraram restos da senzala
e dos seus ocupantes. Com base em documentos guardados na sede, também
dá para se ter uma ideia de sua dimensão. Era a única da região toda
arruada, servida de água e sanitários — na verdade, latrinas.
Telma e os parentes ainda guardam outras
relíquias. Uma delas é a imagem de Nossa Senhora da Conceição, com 21cm
de altura, esculpida por José Joaquim de Veiga Valle. Nascido em
Pirenópolis em 1806 e morto na Cidade de Goiás, em 1874, ele é a maior
referência da arte sacra goiana e o mais importante artista do estado
até o século 19.
Para manter viva a história da Babilônia,
Telma e três ajudantes preparam quitutes da tradicional cozinha goiana,
feitos em fogões a lenha e oferecidos aos visitantes. Alguns, como
doces preparados em tachos de cobre, levam um dia para ficar prontos.
Em uma área equivalente a 1.020 campos de
futebol, a Babilônia atual mantém criações de cerca de 1,2 mil cabeças
de gado leiteiro e de corte. O que se planta serve de alimento aos
donos, aos 14 empregados e aos turistas que pagam pelo café sertanejo,
com até 40 itens.
 
Com
toda essa riqueza, a propriedade acabou tombada pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1965, quase 25 anos
depois do centro histórico de Pirenópolis. O órgão entregou a
propriedade como nova, em 2008, após quase dois anos de restauro.
Como chegar
Pirenópolis fica a 150km de Brasília. O
acesso se dá pela BR-070 ou pela BR-060 (com entrada por Abadiânia).
Para chegar à Fazenda Babilônia, é preciso andar mais 24km, até o Km 3
da GO-431, estrada que leva ao sentido contrário à capital do país.
Visitação
Além de restaurar a sede da Fazenda
Babilônia, o Iphan recuperou o antigo paiol para servir de receptivo aos
visitantes. No local há sala de recepção, banheiros e uma lojinha com
artesanato e guloseimas feitas na propriedade rural, como há 200 anos.
Sábados, domingos e feriados, ela é aberta aos turistas de 8h30 às
16h30. A entrada custa R$ 12. Quem tem até 12 anos não paga.
Além do passeio, é oferecido um café com
40 itens da culinária goiana. Se quiser conhecer a propriedade e comer, o
visitante adulto paga R$ 50. Para a criança, o serviço custa R$ 25. De
segunda a sexta-feira, as visitas precisam ser agendas por meio de um
desses telefones: (62) 3331-1226; 9294-1805; 9291-1511.
Renato Alves (texto) e Monique Renne (fotos)

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