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O Morro do Frota, sua Mansão e a Igreja do Carmo

Situa-se no maciço a leste de Pirenópolis a elevação de todos conhecida como Morro do Frota.

 Provém o nome de seu primeiro dono, o riquíssimo Sargento-mór Antônio Rodrigues Frota, natural da freguesia de São Miguel do patriarcado de Lisboa, falecido em Pirenópolis a 22 de dezembro de 1774. Segundo Jarbas Jayme, a ele e a seu sogro Luciano Nunes Teixeira deve Pirenópolis a Capela de Nossa Senhora de Monte do Carmo – aquela ao lado da ponte de madeira, tradicionalíssima, sobre o Rio das Almas – capela que construíram, onde estão sepultados e onde existiam suas lápides sepulcrais. A igreja passou por uma deprimente reforma em 1868 possivelmente, perdendo suas características coloniais, mais elegantes a meu ver – como  se observa em belíssimo desenho de W. J. Burchell, de 1828. Estava então prestes a ruir, escorada por postes de madeira. Aparece na última capa desta revista, em fiel pintura do acadêmico Pérsio Ribeiro Forzâni, baseada no esboço de Burchell.
 
No mesmo desenho do inglês Burchell, em 1828, vê-se do lado direito, o palácio que o Sargento-mór Frota construiu para sua moradia. Tinha uma torre, onde decerto o milionário estendia-se em confortável rede, assistindo ao fim do dia, cercado de amigos ricos e eventuais e inevitáveis bajuladores. Pintado por Forzâni, em quadro de coleção do Acadêmico Isócrates de Oliveira, mostra-se, junto com a Ponte sobre o Rio das Almas, na capa frontal desta Revista.
 
Era o Frota casado com uma senhora, também portuguesa, com a qual teve filhas e – ao que parece – nenhum filho varão.
 
Segundo a tradição, acreditava-se o Frota tão rico e importante, que não deu suas filhas em casamento a ninguém em Meya Ponte.
 
O palácio mourisco do Frota – esse mourisco por minha conta, por destoar muito da arquitetura usual da época – existia ainda em 1828 – ( há mais de cinquenta anos morrera seu construtor) – na minha opinião foi a maior residência erguida em Goiás no século XVIII. E seguramente uma das maiores erguidas no Brasil naquele século, similar à Casa dos Contos de Ouro Preto, pertencente ao inconfidente João Rodrigues Machado, o homem mais rico de Minas Gerais em fins daquele século e, que comprando sua liberdade através de doações ao terrível governador de Minas ao tempo da Inconfidência, salvou sua pele. Mas maçon que era, sempre mandou algum dinheiro para seus encarcerados amigos, entre eles o famoso alferes Tiradentes, que além de seu parco salário de militar, complementava-o com o ofício de dentista.
 
Voltemos ao Sargento-mór Antônio Rodrigues Frota. Foram – ele e seu sogro – especialistas em mineração, empreendimento a que não devia faltar anexa uma poderosa casa comercial, comuns na adesão de dezenas de correspondentes comerciais – sobretudo na Bahia, que era então, ainda, a capital do Brasil. Os alicerces do palácio do Frota existiram, até alguns anos atrás, no terreno do grande Hotel Pousada dos Pireneus.
 
Segundo o Acadêmico Pompeu Christovam de Pina, em meados do século XVIII, teria o Frota adquirido – a preço de banana – quase todas as lavras de ouro da Serra dos Pireneus.
 
O destino do potentado Antônio Rodrigues Frota esbarrou no do também poderoso Antônio José de Campos. Também Sargento-mór, Antônio José de Campos é um dos patriarcas da família Fleury Curado no Brasil, com diversos representantes em Pirenópolis e Corumbá.
 
Era português do bispado de Vizeu e teve vida longa, falecendo muito depois do Frota, em 1795.
 
Jarbas Jayme coletou na tradição pirenopolina de que havia uma surda competição entre o Sargento-mór Campos e o sogro de Frota, Luciano Nunes Teixeira.
 
Luciano, talvez em ano anterior a 1750, teria erguido a pequena Capela do Carmo. Pois em seguida, Antônio José de Campos ergue (1750 – 1754) a esplendorosa Igreja do Bonfim, situada mais alta, ao lado da estrada que leva à Serra dos Pireneus, ao lado do Hotel Quinta da Santa Bárbara, e de onde, no passado, também rompia a estrada para Corumbá. Campos tinha suas principais minas para as bandas de Corumbá.
 
Seja como for, a resposta do mandatário Luciano pode ter sido o erguimento inusitado do já citado palácio mourisco.
 
Emulavam-se os dois. Competiam para demonstrar publicamente suas riquezas. Não sabemos como Antônio José de Campos revidou à construção do palácio mourisco. Teve porém diversas grandes casas em seus sítios de lavras e de roças, entre elas a famosa Tapera Grande, que pode ter sido um símile do palácio do Frota em área rural.
 
Concluamos, porém, o caso do Frota com um episódio significativo dos tempos. Visitando Pirenópolis, em 1819, o grande naturalista Auguste de Saint Hilaire conheceu o palácio em ruínas e soube dos destinos das filhas do Frota.
 
Morreram à míngua, mendigando pelas ruas de Pirenópolis.

Paulo Bertran. Revista Meya Ponte nº 03, ano 1998, pp. 11/13.

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